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sexta-feira, 25 de março de 2011

FOLHA DE SÃO PAULO. Ilustrada 25/03/2011




Dramaturgo impulsiona teatro experimental do país



GABRIELA MELLÃO
DE SÃO PAULO

O círculo é o signo da completude. Uma linha curva que ao se fechar traduz de maneira absoluta o conceito de perfeição.

Em "Pinokio", novo trabalho do autor e diretor Roberto Alvim e de sua Cia. Club Noir, uma esfera incompleta e um tanto distorcida coroa a cena.

Evoca um mundo instável, que traduz seu pensamento. Como artista, professor ou curador, Alvim fez progredir o teatro experimental do país nos últimos cinco anos.

Compôs uma grade de programação de alto teor experimental no Festival Internacional de São José do Rio Preto, em 2010.

Nas aulas de dramaturgia ministradas por ele na SP Escola de Teatro, em São Paulo, e no Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná, em Curitiba, suas ideias revolucionárias sobre teatro contaminam também estudantes. Ele começa a formar uma nova leva de autores teatrais.

Cinco deles se apresentam no Fringe, mostra do Festival de Curitiba, que começa na terça. Entre eles, Luiz Felipe Leprevost, autor de "Hieronymus nas Masmorras", que estreia com encenação do próprio Alvim com Juliana Galdino, sua mulher e parceira na Cia. Club Noir, considerada uma das maiores atrizes de sua geração.

Lenise Pinheiro/Folhapress

O dramaturgo Roberto Alvim, que tem ideias revolucionários sobre o teatro, na sede do grupo Cia. Club Noir (SP)
"A maneira como nós compramos a ideia de vida humana é limitadora", diz Alvim, 38, à Folha.

A arte da Cia. Club Noir busca, a partir da linguagem, criar sobre o palco um universo desconhecido. "O grande teatro reconstrói o mundo", afirma.

Alvim relembra uma experiência definidora. Com oito anos, aventurou-se pela biblioteca de seus pais. Tirou da estante o livro "Histórias Extraordinárias", de Edgar Allan Poe.

Ao mergulhar na obra, o menino que se tornaria um dos mais radicais encenadores de teatro experimental na atualidade foi tomado por um pânico absoluto.

Em sua mente fértil, as sombras adquiriram vida e o invisível se propagou. "Ao travar contato com aquelas palavras, o mundo inteiro se desconstruiu e se reconstruiu na minha frente."

Trocou o sonho de ser físico nuclear por outro: seria autor de teatro.

Cia. Club Noir instiga com teatro caótico e pulsante

DE SÃO PAULO

A engrenagem da vida e a do teatro rodam fora do eixo para Roberto Alvim. Seu inconformismo com o mundo chegou a ser confundido com loucura.
Isso até o autor e diretor fundar com a atriz Juliana Galdino uma das mais investigativas companhias de teatro do país, a Cia. Club Noir, em 2006.
Em "Anátema", espetáculo inaugural do grupo, Alvim começa de fato sua busca pela construção de novos fundamentos teatrais.
Em "O Quarto" -vencedor do Prêmio Bravo! de melhor espetáculo de 2008-, fez renascer o primeira peça de Harold Pinter.
Em "Tríptico Richard Maxwell" -indicado ao Prêmio Bravo! de Melhor Espetáculo de 2010 e ao Shell pela pesquisa e criação da obra-, Alvim apresentou um panorama da arte vanguardista do dramaturgo norte-americano Richard Maxwell.
O encenador cria no palco sua própria visão de mundo, alterando a percepção cotidiana de tempo e espaço.

REALIDADE
Os dez espetáculos montados pela companhia evocam uma realidade que nasce a partir do texto e concretiza a ausência, rejeitando conceitos enraizados sobre sujeito, narrativa e interpretação.
Evidenciam também o apetite de Alvim por uma cena penumbral capaz de instigar o imaginário e uma arquitetura dramatúrgica original, na qual inúmeros emissores habitam um personagem.
Há cinco anos Alvim amadurece -e radicaliza- seus conceitos em cena. O ciclo dessa trajetória investigativa, que fez avançar o teatro contemporâneo do país, culmina justamente em "Pinokio", seu experimento artístico mais radical.
"Pinokio" é um filho feio (no sentido de que não está no padrão de beleza que a hegemonia elegeu) que marca o começo de algo realmente fundante. O início de uma vereda em direção a um planeta que não se conhece, mas onde se quer morar.
(GABRIELA MELLÃO)

Com neologismos, texto sacrifica recepção em nome de poesia cênica

CHRISTIANE RIERA
CRÍTICA DA FOLHA

O diretor e dramaturgo Roberto Alvim tem sido celebrado como um dos autores mais inovadores e arrojados à frente do Club Noir, criado em parceria com a atriz Juliana Galdino.
Sua mais recente montagem, "Pinokio", inspirada em "Pinóquio", de Carlo Collodi (1826-1890), vem reiterar esses títulos.
Do original, há pouco sobre o boneco que fabrica histórias, cujo drama está em padecer na transição do estado puramente material para a dimensão espiritual.
O ganho de vida traz o imponderável, algo moralmente confuso e angustiante. Diferentemente do clássico, o espetáculo apresenta seres humanos com a mesma angústia de se encontrar em processo de mutação. Em via contrária, aqui o espírito inquieto sofre com suas fusões em matéria.
Alvim elimina naturalismo e narrativas para criar rascunhos do que podemos vir a ser: "Uma coisa é alguém coisa".
A batalha é travada com um texto cheio de neologismos e palavras deslocadas que servem para inquietar, não para explicar. Trama e conflito cedem lugar a ruídos e sussurros, que carregam o tema do hibridismo entre corpos e máquinas.
"Restos dele escoam pelos canos intestinos vísceras tubulações da casa."
No palco, atores imóveis estão sujeitos à iluminação que os transforma. Luz branca resulta em troncos sombreados. Focos isolados revelam rostos pasmados. Por último, um vermelho insistente parece mergulhá-los em impalpável perigo.
Personagens são vozes aprisionadas e manifestas em timbres distintos. Do ponderoso tom de Juliana Galdino ao melancólico de Rodrigo Pavon, cria-se uma escala de ressonância acústica variada, segundo as diversas profundidades em que se posicionam no palco.
Com isso, a sensação é de instabilidade no espaço.
"Pinokio" é poesia cênica radical. Propõe a combinação de som e imagem como uma experiência sinestésica, mesmo que sacrifique facilidade na recepção do texto.
Se o hermetismo é veículo para reproduzir a aflição de um nebuloso mundo em transição, também afasta o espectador de tal fruição, ao oferecer pouquíssimos fios em que se agarrar na travessia por esse labirinto.
No final, olhares perplexos do público. Alguns inconformados com a obscuridade da proposta. Aqueles que aceitaram o tormento em lidar com um universo desconhecido refizeram a trajetória de um Pinóquio: "Um eco e a vertigem. Perguntas?".

PINOKIO

QUANDO de quinta a sábado, às 21h; domingos, às 20h
ONDE Club Noir (r. Augusta, 331; tel. 0/xx/11/3255-8448)
QUANTO R$ 10
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO ótimo






Um comentário:

Débora Aoni disse...

Pessoal, ainda não vi a nova montagem, mas que textos lindos vcs. ganharam! As análises da Christiane e da Gabriela estão muito emocionantes e sinceras. Tô louca pra ver este 'filho feio'!
Bjs,
Débora Aoni